cap003_a_garota

A irmã estava no quarto dela, cuidando das suas coisas sem se preocupar com o mundo fora daquelas paredes. Ela chegou a ouvir um barulho seco de algo batendo em algum lugar mas não deu muita importância. Mal sabia ela que seu irmão do meio havia caído na cozinha, fato esse que ela estava prestes a descobrir. Minutos após o barulho, que ela nem lembrava mais ter ouvido, uma voz ecoava no corredor. Ela percebeu q seu irmão chamava pelos pais, mas estes estavam viajando.

 

Ela abriu a porta e se deparou com o irmão, lavado com o sangue de sua cabeça, dizendo que ele “achava que tinha batido a cabeça em algum lugar”. Parecia que ele não tinha noção da gravidade dessa pancada mas estava alerta e consciente. Parecia que não sentia dor, mas muito sangue corria pelo seu pescoço, sujando sua camiseta. Logo, seu irmão mais velho apareceu, junto com a cunhada. Eles moram nos fundos por isso, rapidamente, chegaram para ajudar afinal, alguém precisava levá-lo ao hospital.

 

Alguns minutos se passaram e enquanto seu irmão mais velho e sua irmã mais nova o limpavam para entrar no carro, começaram a perceber sinais de que o do meio não estava tão bem. Ele começou a repetir as mesmas perguntas que havia feito minutos antes: – cadê o pai e a mãe? – Preciso pegar minha carteira. – acho que bati a cabeça – que dia é hoje? – No começo os dois irmãos respondiam as mesmas perguntas, mas depois, de tão ridícula que a situação estava se tornando, começaram mais a rir do que responder, e assim, o acidentado depois de limpo foi levado pelo irmão mais velho ao hospital.

 

Chegando lá ele logo foi colocado em uma cadeira de rodas e levado para o Pronto Socorro para os primeiros socorros. Ele já não tinha mais nenhuma noção da situação e ficava sempre se repetindo de novo e de novo. Seu machucado foi limpo e dois cortes foram descobertos e precisavam ser costurados – que dia é hoje? – Seu irmão segurava sua mão quando a anestesia foi aplicada. É estranho pensar que em casos como estes a anestesia é aplicada direto no local a ser costurado. A dor foi tanta que a mão do irmão precisou ser tratada também porque os dedos quase foram esmagados pelo aperto gerado pela dor.

 

Passada a dor e de curativo feito – cadê o pai e a mãe? – ele foi ficando cada vez mais perdido em sem noção de tempo e de realidade e como era bastante monótono esperar, o irmão começou a brincar com a falta de memória dizendo coisas como – você lembra que vc recebeu uma proosta para receber 10 mil reals? – Sério? Que legal! – é, mas vc recusou… – não acredito, como eu sou burro… – e até mesmo ele próprio percebeu que estava se repetindo tentando fazer coisas diferentes que eram sempre as mesmas. A situação era tão bizarra que um bêbado havia se acidentado, afinal estamos em um pronto-socorro, se levantou e disse: – nossa, esse aí ta pior que eu.

 

O tempo passou e pessoas iam e chegavam, quando uma pessoa chamou sua atenção. Um senhor, acompanhado da esposa e da filha chegou em uma maca. Aparentemente ele tinha problemas nos rins, talvez pedras que estavam se movimentando para algum dia sair. A filha, uma morena de formas bem feitas e cabelo comprido era bem familiar. Ele não sabia de onde mas tinha certeza que já tinha visto essa garota em algum lugar. Por alguns minutos ele se quietou e parou de repetir as mesmas coisas, tentando encontrar em algum lugar de sua memória despedaçada a figura desta menina que acabara de entrar. A descoberta enfim aconteceu e deixou-o perplexo e um inevitável grito aconteceu: é a menina do meu sonho!

 

Depois de tantas frases repetidas, esta nova foi uma surpresa para todos que puderam ouvi-la, incluem-se a morena, a mãe e o pai com dor nos rins. Sua memória estava quebrada mas seu bom humor não – cadê o pai e a mãe? – e seu estado chegava a ser engraçado pelas coisas que dizia e repetia – que dia é hoje? – e até a garota dos sonhos já tinha se afeiçoado ao rapaz que dizia com tanta verdade – é a garota do meu sonho.

Leave a Reply