O giro perfeito do Menino Pião
May 29, 2009
Ele sonhava em ser capaz de fazer aquilo que nasceu para fazer melhor do que ninguem. Se enrolava todo, se jogava, batia contra paredes, quebrava vidraças, encontrava outros como ele e juntos trocavam dicas e experiências e apesar de descontrolado, era feliz na busca de seu sonho.
Foi ganhando controle e experiencia, já não se chocava tanto com as coisas cada vez se enroscava menos com a corda. Foi percebendo que conforme o sonho se aproximava, todo o resto ficava mais longe.
Hoje ele consegue dar um giro perfeito, não esbarra em nada e não encontra ninguem. Fica sempre parado, girando em torno de si mesmo, ele não para nunca, mas nunca sai do lugar.
INTERLÚDIO – Questões que não tem resposta?
April 27, 2009

Por que as coisas estão como estão?
Por que está tão dificil realizar as coisas e fazer acontecer?
Por que acordar de manhã ficou tão complicado?
Por que eu trabalho tanto?
Por que eu espero tanto?
Por que eu não sou capaz?
Por que as coisas não estão melhores?
Por que eu acredito que vai melhorar?
Por que as vezes parece que nada pode ser feito?
Por que a vida anda tão sem graça?
Por que eu não aceito as coisas como são?
Por que busco a felicidade?
Por que tanta cobrança?
Por que tenho que fazer o que esperam que eu faça?
Por que tenho que ser perfeito?
Por que tenho que ser belo como nas revistas?
Por que estou sempre buscando?
Por que eu preciso de alguém?
Por que não precisam de mim?
Por que não sou o bastante?
Por que não fico sozinho?
Por que não ficamos juntos?
Por que sim?
Por que não?
Por que?
Por que faço tantas perguntas?
Por que não tenho respostas tão obvias?
Mas será que as respostas são obvias?
Será que eu não sei a resposta?
Será que eu não realizo?
Será que eu não sou capaz?
Será que é dificil?
Será que é facil?
Será que depende de mim?
Será que eu espero algo dos outros?
Será que esperam algo de mim?
Será que eu trabalho tanto?
Será que eu me cobro demais?
Será que faço mais que preciso?
Será que estou passivo demais?
Será que preciso agir?
Será que a vida é isso?
Será que não vai melhorar?
Será que estou triste?
Será que tenho que me conformar?
Será que as perguntas são importantes?
Será que eu preciso saber?
Será que eu preciso de alguém?
Será que não precisam de mim?
Será que eu estou sozinho?
Será que eu gosto dela?
Será que ela gosta de mim?
Será que sim?
Será que não?
Será?
Por que será?
A irmã estava no quarto dela, cuidando das suas coisas sem se preocupar com o mundo fora daquelas paredes. Ela chegou a ouvir um barulho seco de algo batendo em algum lugar mas não deu muita importância. Mal sabia ela que seu irmão do meio havia caído na cozinha, fato esse que ela estava prestes a descobrir. Minutos após o barulho, que ela nem lembrava mais ter ouvido, uma voz ecoava no corredor. Ela percebeu q seu irmão chamava pelos pais, mas estes estavam viajando.
Ela abriu a porta e se deparou com o irmão, lavado com o sangue de sua cabeça, dizendo que ele “achava que tinha batido a cabeça em algum lugar”. Parecia que ele não tinha noção da gravidade dessa pancada mas estava alerta e consciente. Parecia que não sentia dor, mas muito sangue corria pelo seu pescoço, sujando sua camiseta. Logo, seu irmão mais velho apareceu, junto com a cunhada. Eles moram nos fundos por isso, rapidamente, chegaram para ajudar afinal, alguém precisava levá-lo ao hospital.
Alguns minutos se passaram e enquanto seu irmão mais velho e sua irmã mais nova o limpavam para entrar no carro, começaram a perceber sinais de que o do meio não estava tão bem. Ele começou a repetir as mesmas perguntas que havia feito minutos antes: – cadê o pai e a mãe? – Preciso pegar minha carteira. – acho que bati a cabeça – que dia é hoje? – No começo os dois irmãos respondiam as mesmas perguntas, mas depois, de tão ridícula que a situação estava se tornando, começaram mais a rir do que responder, e assim, o acidentado depois de limpo foi levado pelo irmão mais velho ao hospital.
Chegando lá ele logo foi colocado em uma cadeira de rodas e levado para o Pronto Socorro para os primeiros socorros. Ele já não tinha mais nenhuma noção da situação e ficava sempre se repetindo de novo e de novo. Seu machucado foi limpo e dois cortes foram descobertos e precisavam ser costurados – que dia é hoje? – Seu irmão segurava sua mão quando a anestesia foi aplicada. É estranho pensar que em casos como estes a anestesia é aplicada direto no local a ser costurado. A dor foi tanta que a mão do irmão precisou ser tratada também porque os dedos quase foram esmagados pelo aperto gerado pela dor.
Passada a dor e de curativo feito – cadê o pai e a mãe? – ele foi ficando cada vez mais perdido em sem noção de tempo e de realidade e como era bastante monótono esperar, o irmão começou a brincar com a falta de memória dizendo coisas como – você lembra que vc recebeu uma proosta para receber 10 mil reals? – Sério? Que legal! – é, mas vc recusou… – não acredito, como eu sou burro… – e até mesmo ele próprio percebeu que estava se repetindo tentando fazer coisas diferentes que eram sempre as mesmas. A situação era tão bizarra que um bêbado havia se acidentado, afinal estamos em um pronto-socorro, se levantou e disse: – nossa, esse aí ta pior que eu.
O tempo passou e pessoas iam e chegavam, quando uma pessoa chamou sua atenção. Um senhor, acompanhado da esposa e da filha chegou em uma maca. Aparentemente ele tinha problemas nos rins, talvez pedras que estavam se movimentando para algum dia sair. A filha, uma morena de formas bem feitas e cabelo comprido era bem familiar. Ele não sabia de onde mas tinha certeza que já tinha visto essa garota em algum lugar. Por alguns minutos ele se quietou e parou de repetir as mesmas coisas, tentando encontrar em algum lugar de sua memória despedaçada a figura desta menina que acabara de entrar. A descoberta enfim aconteceu e deixou-o perplexo e um inevitável grito aconteceu: é a menina do meu sonho!
Depois de tantas frases repetidas, esta nova foi uma surpresa para todos que puderam ouvi-la, incluem-se a morena, a mãe e o pai com dor nos rins. Sua memória estava quebrada mas seu bom humor não – cadê o pai e a mãe? – e seu estado chegava a ser engraçado pelas coisas que dizia e repetia – que dia é hoje? – e até a garota dos sonhos já tinha se afeiçoado ao rapaz que dizia com tanta verdade – é a garota do meu sonho.
O TOMBO – Quando se descobre que, de fato, do chão a gente não passa.
November 10, 2008
O tempo e a rotina continuaram, como sempre, e aquele sonho não fazia mais parte de seus pensamentos. Uma coisa que podemos perceber deste jovem é que ele trabalha muito e em diversas oportunidades escolhe o trabalho à diversão. Já perdeu fins de semanas, noites, festas, aniversários e feriados trabalhando. Ele acredita que como ele não é melhor que os outros, tem que trabalhar mais, e assim acaba se afundando no trabalho, acumulando estresse e cansaço sem perceber e deixando de aproveitar aquilo que a vida tem de melhor que é viver e, assim, passou os últimos meses trabalhando tanto que não percebia que seu corpo e sua mente estavam próximos do limite.
Este fim de semana, porém, tinha um acontecimento especial. Um casal de amigos, dos tempos de faculdade, ia se casar no sábado. Depois de mais uma longa temporada de trabalho ininterrupto, ele, mais uma vez, abriu mão de sair, de conhecer gente nova e se divertir com a mesma desculpa de sempre, que estava cansado e a nova desculpa que ele deu para si que era este casamento, como tinha compromisso no dia seguinte se conformou em não sair no sábado. Chegou tarde em casa e como de costume, deitou-se no sofá para ver um pouco te TV.
Por sorte estava passando um filme bastante interessante e, pelo menos, o mínimo de distração ele tinha, não que fosse melhor do que ter saído, mas era melhor do que nada. Assistiu quase até o final do filme quando a sede acumulada ficou mais forte e, então, decidiu levantar-se rapidamente para tomar um copo de água para não perder muito do filme. Correu até a cozinha e ao pegar o copo e abrir o filtro, sem mais nem menos, apagou.
Foi como um curto-circuito em que a luz se apaga repentinamente e nada se vê, a diferença era que nada se via nem se sentia. Suas pernas não o sustentaram e, como uma árvore serrada em uma floresta, desabou de costas, batento com a cabeça no chão com toda a força que seus 1,80 metros puderam gerar com a força da gravidade. Estava, agora, inconsciente, com a cabeça arrebentada enquanto o sangue se espalhava no chão da cozinha. De uma hora pra outra a vida decidiu que era hora dele acordar fazendo-o dormir.
O SONHO – Onde os acontecimentos podem ser tão verdadeiros que confundem-se com a realidade.
November 3, 2008
Um Hospital, como chegou lá ou o que aconteceu ele não se lembra, a única coisa que ele sabe é que há uma linda garota no local. Ele sabe que um pronto socorro não é o melhor lugar para se conhecer alguém, mesmo assim, se enche de coragem para conhecê-la.
Sua condição é desconhecida. Não há dor nem lembrança do que aconteceu, apenas uma certeza, ele é o paciente pois está sentado em uma maca, com a cabeça enfaixada. Entretanto, nada disso importa, seu foco agora é na bela morena que está ali, próxima a ele e então… PIII PIII PIII… toca o despertador e ele acorda daquilo que ele acreditava ser um acidente que poderia, no fim, trazer alguma coisa boa. Estava impressionado como o sonho era real, e como a figura da morena que lá estava o marcou, mas isso também não importa, estava na hora de levantar e ir trabalhar.


